A cena musical brasileira segue surpreendendo. Com Mar da Deriva, lançado em maio de 2025, Vauruvã entrega uma obra que vai além dos rótulos fáceis — experimental, emotiva, sinuosa. É um álbum que convida à imersão, ao introspectivo e ao ritualístico, ressignificando a própria noção de “metal extremo” ao encontrar ecos de folclore, de natureza, de viagem interior.
Formado por Bruno Augusto Ribeiro (letras, voz, capa) e Caio Lemos (instrumentos, produção, arte), Vauruvã constrói uma narrativa sonora onde o abstrato e o concreto se misturam. Mar da Deriva surge como o terceiro álbum de estúdio da dupla, e revela uma maturidade artística que une experimentação, densidade e estética própria.

Conceito e temas
O título Mar da Deriva já entrega muito: deriva, navegação, incerteza, mar profundo. A obra explora a ideia de flutuar entre mundos — entre passado e futuro, entre ancestral e contemporâneo, entre natureza e tecnologia. As faixas sugerem uma viagem simbólica: “Legado”, “Os Caçadores”, “As Selvas Vermelhas no Planeta dos Eminentes” formam uma trilogia que leva o ouvinte por cenários mitológicos, visões de mundos esquecidos e paisagens internas.
As letras dialogam com o sagrado, com o esquecido, com a memória de povos e com a inquietude do presente. A música, por sua vez, mistura atmosferas típicas do black metal, mas não se acanha de se banhar em ritmos, sons e referências que se afastam do convencional.
Sonoridade e produção
Em Mar da Deriva, Vauruvã estrutura o som como uma trilha de navegação: fluido, expansivo e, ao mesmo tempo, preciso. As faixas têm durações generosas (a mais longa ultrapassa quinze minutos), permitando transições, pausas, atmosferas, ruídos e crescendos — tudo parte de uma arte pensada para ser experimentada e absorvida.
A produção privilegia a clareza com camadas — instrumentos, vozes, ambientes sonoros — criando diálogos entre o íntimo e o cósmico. Em vez de buscar o “barulho pela brutalidade”, Vauruvã investe no “ambiente pelo significado”, sem perder impacto. Um álbum para ouvir com atenção, de preferência em fones ou num volume que permita sentir cada textura.
Faixas que merecem atenção
- “Legado” abre o álbum com mais de nove minutos: introdução de viagem, evocação de ancestralidade e o fundamento dessa travessia sonora.
- “Os Caçadores” adentra territórios de transição, sintetizadores, vozes que parecem flutuar. Há uma sensação de tempo suspenso, de “entre mundos”
- “As Selvas Vermelhas no Planeta dos Eminentes” fecha o álbum com mais de quinze minutos, costurando o metal extremo, a música de raiz, ritmos tropicais e uma simbologia vibrante de natureza/mito
Essas faixas, juntas, criam uma obra que vai além da soma dos elementos — ela constrói um universo próprio.
Por que esse disco importa
Porque ele mostra que o metal (ou seus híbridos) no Brasil não está restrito ao “peso puro”. Vauruvã evidencia que é possível aliar experimentação, profundidade temática, fusão de estilos e ainda manter autenticidade. É uma música que exige escuta ativa e recompensa com camadas de significado.
Além disso, representa a força de projetos independentes que não se limitam à fórmula. Em um tempo de consumo rápido e descartável, Mar da Deriva se impõe como um convite à imersão, à reflexão, à curiosidade.
Onde ouvir
O álbum está disponível em plataformas de streaming e para download digital na página oficial da banda no Bandcamp.
Mar da Deriva da Vauruvã é um convite — para navegar, para questionar, para se perder e para se encontrar em sons que não se limitam. Embarque nessa travessia. O mar está em movimento.
Metal Never Die.






