O underground brasileiro recebeu um daqueles lançamentos que não passam despercebidos. Com Como Nascem os Monstros, a banda paulista Manger Cadavre? entrega um álbum intenso, político, agressivo e totalmente conectado com o caos contemporâneo. É o tipo de disco que não apenas faz barulho, mas levanta poeira, cutuca feridas e joga luz sobre o que muita gente prefere ignorar.
Depois de anos de estrada e evolução sonora, o grupo chega ao seu trabalho mais completo, reunindo peso, crítica social e uma estética sonora que transita entre crust, grind, hardcore e metal extremo com naturalidade.

O nascimento dos monstros — literalmente
O conceito do álbum gira em torno da criação dos “monstros” modernos: a violência cotidiana, a alienação social, o esgotamento mental, a manipulação pelo medo, o capitalismo predatório e a tecnologia usada como instrumento de controle.
Cada faixa funciona como um capítulo dessa narrativa sombria. O disco nos coloca frente a frente com monstros que não vêm debaixo da cama, mas da própria sociedade — e de dentro da gente.
A capa, carregada de simbolismos, traduz essa ideia com perfeição: uma mistura de caos, ansiedade e desumanização, como se o álbum já avisasse antes mesmo da primeira nota — “prepara que vem coisa pesada”.
O som: direto ao ponto, sem alívio
A sonoridade de Como Nascem os Monstros é construída para ser incômoda — no melhor sentido possível.
A Manger Cadavre? entrega guitarras que alternam entre riffs urgentes e dissonâncias desconfortáveis, uma bateria que não dá espaço para respirar, baixo encorpado e vocais que rasgam mais do que cantam.
É tudo pensado para refletir a temática do disco: é tenso, é frio, é agressivo e, acima de tudo, é honesto. Não tem pose, não tem enfeite. É pancada direta.
Faixas que chamam atenção
Sem entrar em detalhes técnicos demais, algumas músicas se destacam pela maneira como ampliam o conceito do álbum:
- “Insônia” abre o disco como um ataque de ansiedade transformado em música.
- “Engaiolados” traz a sensação de aprisionamento cotidiano.
- “Obsolescência Programada” critica a lógica do descarte — de objetos e de pessoas.
- “Câncer do Mundo” resume o espírito do álbum: denúncia, revolta e visão crítica do todo.
É um conjunto de faixas que funcionam tanto separadamente quanto como uma obra única — e isso mostra maturidade artística.
Produção precisa e escolha acertada
A produção de Como Nascem os Monstros é limpa o suficiente para deixar tudo claro, mas suja o bastante para não perder a essência do metal extremo.
É denso, pesado e bem mixado — cada instrumento soa com força, sem embolar, e a voz ganha o protagonismo necessário para sustentar as letras.
O resultado final é um álbum com cara de “trabalho de banda grande”, mesmo vindo do underground.
Por que esse disco importa
Porque ele incomoda.
E incomodar, no metal extremo, é virtude.
O álbum fala sobre o país, sobre o mundo, sobre a sociedade e sobre nossas próprias sombras. É atual, relevante e corajoso. É político sem panfleto e agressivo sem ser gratuito.
A Manger Cadavre? entrega um trabalho que representa muito bem o underground nacional, mostrando que a cena extrema do Brasil continua afiada, consciente e cheia de potência criativa.
Onde ouvir
Como Nascem os Monstros está disponível em todas as plataformas de streaming, além de edições físicas já circulando no Brasil. Vale a audição completa — de preferência no volume 11.
O Manger Cadavre? nos lembra que monstros não surgem do nada — eles são criados, alimentados e sustentados.
Resta saber se estamos lutando contra eles… ou fazendo parte da fábrica.






